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Não-escrita (por enquanto!)

          Ontem, nosso país sangrou. Ontem, tivemos um funeral. Mas é preciso acreditar na ressurreição da carne: da carne de terra vermelha, a virgindade de matas verdes, o sangue de águas azuis. É preciso levantar e ser resistência. Respeitemos o resultado das eleições, democratas que somos, mas lembremos também que, quando a vida e a democracia estão na linha de tiro, não somos oposição, somos resistência. Se chorarmos, será de esperança. Se cantarmos, será a palavra de ordem da resistência. Se calarmos, será para buscar no silêncio a potência do novo. Se tivermos medo, será para nos advertir do perigo e relembrar o motivo da luta. Se gritarmos, será em nome da diferença. Se lutarmos, será com livros e flores. Se amarmos, será a cada um na sua singularidade. Se nos perdermos, será para encontrar novos caminhos. Se dormirmos, será para acordar revigorados.             A lista continua. A ...

Diferença e democracia: como responder ao Brasil 2018?

            Para começo de conversa, não quero que este texto se resuma a um mero ele não ou ele sim. Sei que os poucos a quem minhas palavras chegam estão longe de serem desinformados, então não me interessa listar motivos contra ou a favor de um candidato (há, de fato, desinformados, mas dificilmente estarão lendo isto). Estive em dúvida por algum tempo: não há muito mais o que dizer àqueles a quem alcanço, mas também não posso fechar os olhos e escrever quaisquer palavras sobre qualquer tema acadêmico que nada tem a ver com tudo que está acontecendo... de repente, me dei conta que o que tenho realmente para contribuir, e que ninguém pode fazer por mim, é justamente o encontro destas opções. Escrevo, então, sobre as ideias que me rodeiam – na subjetividade e no laço social – neste momento, pautadas naquilo que estudos aparentemente tão distantes do “patrão nosso de cada dia” podem oferecer para uma visão singular do mundo vivido...

Libélulas, pavões e cores existenciais

            O divino, seja como totalidade, seja como esvaziamento e nadidade, está sempre posto no lugar daquilo que nos escapa. Com Lacan, chamaríamos de Real, naquilo que “não cessa de não se inscrever”. Com Jung, poderíamos pensar em sua experiência imediata , mas teríamos de criticá-lo pela ilusão de que ela seja possível no seu rigor – ora, ele mesmo nos indica que o arquétipo está além de qualquer experiência possível, para noutro lugar nos falar de uma suposta experiência imediata? Bem, para começo de conversa, se é uma experiência , está na cultura, no mundo simbólico que constitui a própria possibilidade de vivência humana. Radicalizando este conceito junguiano, encontramos, portanto, a própria dimensão impossível da totalidade/nadidade, aquilo que a todo momento nos escapa e nos submete ao furo do Simbólico. Não deixo de passar por Jung, apesar das tensões internas, pela utilidade de apropriações mitológicas e poética...

A aposta na pluralidade: o pós-estruturalismo não escapa à pós-modernidade

Produção discursiva da verdade não é relativismo. Singularidade não é individualismo. Desejo não é mercantilismo. Desconstrução não é crítica pela crítica. Imanência não é “amores líquidos”. Discursividade, escritura, performatividade (...) não são atribuição de todo fenômeno ao social.             Parto de colocações defensivas relativamente comuns, respostas a críticas também relativamente comuns aos pensadores que denominamos pós-estruturalistas. Mas será mesmo que se sustentam? Será que cada item nesta lista é realmente tão diferente de seu par? E, se não, seria isso realmente um problema? Vou me concentrar especialmente na produção da verdade, na discursividade, já que são, no fundo, aquilo que há em comum entre autores tão diversos, aquilo que nos permite fingir que são um movimento de pensamento coeso e chamar toda uma época simplesmente de pós-estruturalismo .        ...

Utopia do desejo: um projeto político e subjetivo

Movimentar honestamente o próprio desejo e as próprias contradições.             Para começo de conversa, me parece necessário esclarecer o contexto em que surge este texto ou, mais precisamente, esta frase (que o texto só vem expandir). Tratava-se de uma discussão sobre modos de fazer esquerda e, mais precisamente, o lugar da utopia (talvez, até, seja válido escrever mais sobre isto em algum momento). Duas grandes perguntas: a utopia – seja para chegar lá, seja para simplesmente dar a direção – deve nos orientar (dever = dentro de determinada ontologia, ser coerente pensá-la e, ao mesmo tempo, ser ou não ser ela necessária)? Se não, seria possível fazer política – especialmente, política progressista, mudar o mundo – sem ela?             Não vou discutir estas questões, afinal, o tema aqui é outro. Importa que, em alguns aspectos, nós que, discutimos, discordamos ...

Oposição e estrutura: fundamentos originários?

            Para falar do que é mais originário, esbarraremos nos autores mais diversos, ou teremos pelo menos rotas para tal, se quisermos. Os paralelos serão inevitáveis, e às vezes surpreendentes, mas acontece que todos estão buscando aquilo que é anterior à experiência – um pecado epistemológico, certamente. Por isso mesmo, o saber que se pode tecer sobre o que é mais anterior é sempre na negativa, por se tratar sempre daquilo que foge à positivação da vida vivida¹. Em Heidegger, a indeterminação originária, a nadidade anterior ao decaimento num mundo de sentidos históricos; em Saussure, o signo como entidade vazia e arbitrária, que só ganha sentido na articulação da língua; em Jakobson, o fonema zero, sem som, que só serve à articulação dos outros fonemas; em Lacan, o objeto a, encontrado unicamente em seus restos escondidos no desejo; em Lévi-Strauss, as estruturas elementares, sempre leis esvaziadas que servem somente à org...

O mito e o hoje - parte 3: do mito dito ao mito rito

ACESSE: PARTE 1 - CISÕES DO MITO NA PÓS-MODERNIDADE http://entredois-phmendonca.blogspot.com/2018/07/pensando-o-mito-parte-1-cisoes-do-mito.html PARTE 2: A HISTÓRIA DE CRIANÇA E A MONTANHA RUSSA DA VIDA ADULTA http://entredois-phmendonca.blogspot.com/2018/07/pensando-o-mito-parte-2-historia-de.html   Pensar o rito implica sempre pensar em magia ou religião e, ao mesmo tempo, pensar em corpo – afinal, o gesto ritual se faz com o corpo, um corpo que encarna determinada visão de mundo (voltaremos a ela). No entanto, ainda que também parte constituinte da magia e da religião, Lévi-Strauss argumenta veementemente contra a sujeição do rito ao mito. Refere-se às não raras análises que concebem o rito como simples materialização do mito. Temos de concordar que não é difícil pensar assim: quando vemos um orixá manifestado numa roça de candomblé, vemos literalmente a encarnação de uma figura mitológica. Mas, por mais contraintuitiva que pareça sua posição, Lévi-Stra...

O mito e o hoje - parte 2: a história de criança e a montanha-russa da vida adulta

ACESSE A PARTE 1:  CISÕES DO MITO NA PÓS-MODERNIDADE http://entredois-phmendonca.blogspot.com/2018/07/pensando-o-mito-parte-1-cisoes-do-mito.html             Na semana passada, tratamos de dois elementos da cultura moderna que vêm tomar o lugar do mito, morto em nossos ideais analíticos de racionalidade: a ciência, ambiciosa por descrever e explicar o mundo; e os sistemas econômicos, estruturas que organizam (mais ou menos coercitivamente) as relações. Mas, logo de início, havíamos tratado do mito em seu aspecto visceral, certamente não cumprido por estes dois elementos, a não ser para os cientistas entusiastas da academia e investidores ousados das bolsas de valores. Ora, o caráter emocional do mito caminha junto com outra de suas funções, que também tratamos na parte 1, a inserção dos novatos na cultura. Não há dúvida de que esta inserção está de mãos dadas com o lugar estruturante ocupado pelo mito, mas não ensinamos e...

O mito e o hoje - parte 1: cisões do mito na pós-modernidade

           Creio que não se faz necessário começar aqui por uma ode ao pensamento mitológico, devolvendo-lhe seu valor, roubado por nossa avidez pela técnica – especialmente depois da crítica de Conhece-te a Ti Mesmo, mês passado¹. Reconhecendo seu valor, podemos pular um capítulo, para pensar mais propriamente do que estamos falando. O mito certamente não trata de trivialidades, não são historinhas para entreter. Também não tratam, ao contrário, de um estudo exaustivo e milimétrico do mundo ou de si. É visceral e emocional, como o entretenimento; mas fala de algo, como os estudos que nos acostumamos a fazer nos últimos séculos. Neste sentido, parece óbvia a conclusão mais comum: o mito descreve e explica o mundo. Mas isto não nos basta, pois caímos aqui em problemas epistemológicos semelhantes àqueles de que tratei no texto referido: podemos supor um mundo estável, externo e verdadeiro, anterior ao conhecimento?          É pre...

As duas lições do espelho: da identidade à valoração

Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?              Antes da beleza, importa perguntar: espelho, espelho meu, sequer existo eu? Acontece que, para desgosto dos biólogos e geneticistas, não. Pelo menos não assim, não desde sempre, não num corpo biológico dado, não numa herança genética, não num desígnio divino anterior (e quem me conhece reconhecerá que, se digo isso, o tema vale outro texto). Com Heidegger, pensaremos que o ser do ser-aí “está sempre em jogo”, sempre em risco, a todo momento pode não ser mais; então será sempre uma tarefa, sempre um ter-de-ser. Mas mesmo esta tarefa está postergada num ideal de eu que orienta um destino a ser traç­ado. Não, nossa pergunta está ainda antes.             Buscar no olhar do espelho um ser que ainda não sou, um ser sempre incompleto, já está implicado no desejo e no ideal que me orientam em direção a um deus totêmico. Pergunta...