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Nova Era e luta social

Antes de tudo, precisamos notar como o chamado Movimento Nova Era, em sua integralidade, é inseparável do mundo contemporâneo. Àqueles que não o conhecem, a ideia de Nova Era tem suas origens já no movimento hippie , ao melhor estilo John Lennon, imaginando a superação das nações, das guerras, do Céu e do Inferno, imaginando todos os povos compartilhando todo o mundo. É um movimento espiritualista que gira em torno de algumas ideias centrais: a) No século XXI, intensifica-se uma mudança planetária que teve início no século XIX, chamada transição planetária, para uma convivência pacífica e harmônica a nível mundial (daí “Nova Era”). Em geral esta ideia vem associada à queda dos modelos estabelecidos de vida que causam sofrimento e desigualdade, bem como a uma maior preocupação com a experiência espiritual; b) Todas as religiões e filosofias apresentam visões diferentes das mesmas verdades universais, o que leva a um certo globalismo religioso; c) Com a maior atenção à experiên...

Especial de Natal: ama ao teu próximo como a ti mesmo

Em tempos de hegemonia monoteísta, é preciso resgatar o politeísmo do próprio Cristo – politeísmo psíquico, ao menos. Hillman nos ensina os perigos do monoteísmo egoico e centralizador, do monoteísmo de um deus que encarna o perverso totalitário [1]. Se há algo que Jung e os junguianos podem trazer de valioso é a multiplicidade do teatro psíquico, este drama 1100 personagens onde nenhum – jamais! – é igual ao outro. A psique plural de Andrew Samuels se faz radicalmente na multiplicidade, logo, na diferença. Isto é politeísmo: o culto à diferença [2]. O Natal que temos pela frente encerra um ano de uso perverso da religião, um ano marcado pela política que, em nome (questionável) de Deus, centraliza e mata. Para fechar com chave de ouro, um grande médium de cura se revela um abusador. Dúvida cruel: onde, no discurso do amor cristão, cabe a morte, o abuso, a opressão? O problema é mais embaixo. O deus monoteísta não é uma ideia existencial que gira em torno das perguntas fundamenta...

Perversão ou subversão? (Do totalitarismo à resistência)

Há lei que não seja totalitária? Talvez seja conveniente perguntar antes: há lei que não seja perversa? Certamente, nem toda dominação é perversão. Aliás, nem só de perversão se faz o totalitarismo. Para que o haja, não basta um sujeito perverso, que se crê encarnado da Lei¹, é preciso que o acompanhem milhares ou milhões de sujeitos literalizados/literalizadores que ainda acreditem na imaginarização da Lei – a própria neurose... será? O panóptico foucaultiano², por exemplo, não depende do sujeito perverso, e sua eficácia está justamente em que o neurótico que se crê observado basta à sua própria vigilância. É um equipamento que se opera na sua própria neurótica (obsessiva?), mantendo toda sua estrutura = ordem em torno que uma centralização ausente da Lei: falo, mana, fonema zero, casa vazia. Monto este significante, estrutura = ordem, justamente porque a minha aposta aqui é que estrutura não implica necessariamente em ordem, no sentido da dominação. O panóptico pode não implic...

Esse in anima: entre o daimon e a verdade do ser

            O capítulo três da segunda parte de Ficções que curam , Hillman o intitula assim: O ataque de Jaspers à demonologia . Poderia ser espantoso, portanto, a aproximação que aqui nomeio, entre daimon e verdade do ser; ao menos se compartilhamos a clássica aproximação entre Heidegger e Jaspers, se entendemos o pensamento existencialista e humanista como decorrência da fenomenologia hermenêutica de Heidegger. Mas não podemos esquecer o esforço heideggeriano de separar-se da tradição existencial-humanista, na longa crítica que tece em Cartas sobre o humanismo . Em suma, o grave erro que aponta em Sartre e Jaspers é tratar existentia como humanitas do homo humanus . Ex-sistência (ser-para-fora) perde seu caráter ao transformar-se em existentia , palavra única, que se pode entender como coisa, como ente. Mais que isso, como coisa que é defendida como determinação própria do humano ( humanitas ).         ...

"... e eu fiquei sem palavras!' - negativas sobre o sentido ¹

           Bom, eu queria começar lembrando a música da jornada de dois anos atrás. Aos que não estavam, uma música circulou muito, chamada A terceira margem do rio , de Milton e Caetano². E eu sei que muitos de nós aqui no grupo da jornada já nos lembramos desta música, num verso em que diz: “casa da palavra, onde o silêncio mora”. Mas eu queria lembrar de um outro verso, que diz: “fora da palavra, onde o mais dentro aflora”, porque o silêncio que eu quero pensar aqui é um silêncio que está fora de toda palavra, um silêncio que não mora na casa da palavra, talvez. Acho que para isso, é preciso começar fazendo uma contraposição entre o silêncio do cálice ³, que é um silêncio em que há um Outro, seja efetivamente concreto à minha frente, seja um Outro sobjetivo, que me diz: “não diga isso”, mas sempre tem algo aí a ser dito. E é preciso dizê-lo, especialmente nos últimos tempos. Mas isso é uma fala silenciada, e o silêncio que quero t...

Não-escrita (por enquanto!)

          Ontem, nosso país sangrou. Ontem, tivemos um funeral. Mas é preciso acreditar na ressurreição da carne: da carne de terra vermelha, a virgindade de matas verdes, o sangue de águas azuis. É preciso levantar e ser resistência. Respeitemos o resultado das eleições, democratas que somos, mas lembremos também que, quando a vida e a democracia estão na linha de tiro, não somos oposição, somos resistência. Se chorarmos, será de esperança. Se cantarmos, será a palavra de ordem da resistência. Se calarmos, será para buscar no silêncio a potência do novo. Se tivermos medo, será para nos advertir do perigo e relembrar o motivo da luta. Se gritarmos, será em nome da diferença. Se lutarmos, será com livros e flores. Se amarmos, será a cada um na sua singularidade. Se nos perdermos, será para encontrar novos caminhos. Se dormirmos, será para acordar revigorados.             A lista continua. A ...

Diferença e democracia: como responder ao Brasil 2018?

            Para começo de conversa, não quero que este texto se resuma a um mero ele não ou ele sim. Sei que os poucos a quem minhas palavras chegam estão longe de serem desinformados, então não me interessa listar motivos contra ou a favor de um candidato (há, de fato, desinformados, mas dificilmente estarão lendo isto). Estive em dúvida por algum tempo: não há muito mais o que dizer àqueles a quem alcanço, mas também não posso fechar os olhos e escrever quaisquer palavras sobre qualquer tema acadêmico que nada tem a ver com tudo que está acontecendo... de repente, me dei conta que o que tenho realmente para contribuir, e que ninguém pode fazer por mim, é justamente o encontro destas opções. Escrevo, então, sobre as ideias que me rodeiam – na subjetividade e no laço social – neste momento, pautadas naquilo que estudos aparentemente tão distantes do “patrão nosso de cada dia” podem oferecer para uma visão singular do mundo vivido...

Libélulas, pavões e cores existenciais

            O divino, seja como totalidade, seja como esvaziamento e nadidade, está sempre posto no lugar daquilo que nos escapa. Com Lacan, chamaríamos de Real, naquilo que “não cessa de não se inscrever”. Com Jung, poderíamos pensar em sua experiência imediata , mas teríamos de criticá-lo pela ilusão de que ela seja possível no seu rigor – ora, ele mesmo nos indica que o arquétipo está além de qualquer experiência possível, para noutro lugar nos falar de uma suposta experiência imediata? Bem, para começo de conversa, se é uma experiência , está na cultura, no mundo simbólico que constitui a própria possibilidade de vivência humana. Radicalizando este conceito junguiano, encontramos, portanto, a própria dimensão impossível da totalidade/nadidade, aquilo que a todo momento nos escapa e nos submete ao furo do Simbólico. Não deixo de passar por Jung, apesar das tensões internas, pela utilidade de apropriações mitológicas e poética...

A aposta na pluralidade: o pós-estruturalismo não escapa à pós-modernidade

Produção discursiva da verdade não é relativismo. Singularidade não é individualismo. Desejo não é mercantilismo. Desconstrução não é crítica pela crítica. Imanência não é “amores líquidos”. Discursividade, escritura, performatividade (...) não são atribuição de todo fenômeno ao social.             Parto de colocações defensivas relativamente comuns, respostas a críticas também relativamente comuns aos pensadores que denominamos pós-estruturalistas. Mas será mesmo que se sustentam? Será que cada item nesta lista é realmente tão diferente de seu par? E, se não, seria isso realmente um problema? Vou me concentrar especialmente na produção da verdade, na discursividade, já que são, no fundo, aquilo que há em comum entre autores tão diversos, aquilo que nos permite fingir que são um movimento de pensamento coeso e chamar toda uma época simplesmente de pós-estruturalismo .        ...

Utopia do desejo: um projeto político e subjetivo

Movimentar honestamente o próprio desejo e as próprias contradições.             Para começo de conversa, me parece necessário esclarecer o contexto em que surge este texto ou, mais precisamente, esta frase (que o texto só vem expandir). Tratava-se de uma discussão sobre modos de fazer esquerda e, mais precisamente, o lugar da utopia (talvez, até, seja válido escrever mais sobre isto em algum momento). Duas grandes perguntas: a utopia – seja para chegar lá, seja para simplesmente dar a direção – deve nos orientar (dever = dentro de determinada ontologia, ser coerente pensá-la e, ao mesmo tempo, ser ou não ser ela necessária)? Se não, seria possível fazer política – especialmente, política progressista, mudar o mundo – sem ela?             Não vou discutir estas questões, afinal, o tema aqui é outro. Importa que, em alguns aspectos, nós que, discutimos, discordamos ...