Pular para o conteúdo principal

Postagens

Por que o oriente? A simplicidade do Tao contra os dualismos da tradição ocidental

Tenho estudado o taoísmo. Menos pela filosofia da academia que pelo meu daimon esotérico. Mas o que me encanta nas tradições orientais em geral, e no taoísmo particularmente, é o inesperado parentesco com os pensamentos que me têm orientado no mundo dos saberes europeus. Não há influência direta, em geral. Quando muito, em Jung – mas convenhamos que, para fazer o que tenho tentado fazer do seu pensamento (e que me parece bastante próximo de tais tradições), é necessária uma leitura ridiculamente específica e crítica dos textos junguianos. Heidegger, Deleuze, Lacan... estes dificilmente teriam citado Lao-Tsé. Ainda assim, a filosofia taoísta, tanto quanto os pensamentos que me reinventam, poderia ser descrita inteiramente como uma filosofia da negatividade. No alto da escada das coisas sagradas, o Tao. Por um lado, absoluto; pelo mesmo lado, vazio. Já passei por isso aqui antes, e algum dia pretendo mergulhar de cabeça, mas por ora só repito que, de alguma maneira, o todo e o nad...

O campo psi: operador na cena da falácia das ciências humanas

Há alguns meses fui inquirido, enquanto estudante de psicologia, sobre nossa epistemologia. É claro que minha resposta foi um grande improviso bagunçado sobre abordagens e, no fim, falei, falei e não disse nada. O fato é que não temos epistemologia e, por isso mesmo, produzimos mais e mais abordagens sem ter fim. Mas não é à toa, nosso problema é o problema das humanidades. É conhecido o enrosco epistemológico de se construir  ciências  humanas: o campo põe o sujeito no lugar de objeto. A bem da verdade, as humanidades põe em jogo o engodo cartesiano do dualismo sujeito-objeto (para não falar de outros). Nas ciências da natureza, vá lá, muito produtivo; para nós, a coisa bambeia. De alguma maneira, a psicologia não conseguiu se resolver com isso – me parece que talvez por sua própria constituição. Nossos colegas vêm encontrando modos de se desvencilhar do problema separando de algum modo seu objeto do humano propriamente dito: a antropologia estuda a cultura; a história, um...

Desgrupalizar: possibilidades de grupo a serviço da singularização

            Em Utopia do desejo [1], sinalizei uma dívida da Psicologia com a sociedade: modos de singularização – aquela que buscamos em análise – que atuem no coletivo, que possam produzir uma ética do desejo e da contradição para além dos limites sociais e quantitativos da clínica tradicional. Dizia que as atuações coletivas da psicologia têm substituído a psicoterapia, com seus ideais de cura e alívio de sofrimento, mas não a análise, esfacelamento do sujeito dado como a priori , escancaramento do vazio, da pluralidade e do impossível. Hoje, talvez, eu traduzisse isso pelo sujeito residual deleuziano, pelo desejo que se movimenta sem eu ideal, na multiplicidade fluídica do corpo-sem-órgãos.             Algum tempo atrás, fui questionado sobre a prática de grupos – que vinha incluindo na lógica da cura, onde o encontro de dores semelhantes aplacaria a dor de cada um. O...

Pensamentos despretensiosos sobre o mal, o bem e uma suposta "positividade" negativada

Mal e bem, guerra e paz, raiva e paciência, medo e coragem, ego e transcendência... são tantas as oposições que nos constituem, no âmago do humano. Erro e acerto. Erro? Medo é erro? Raiva é erro? Ego é erro? Um afeto que me invade corporalmente, ou uma estrutura que se funda nos limites difusos (no não-limite, na verdade) entre natureza e cultura – coisas assim não partem de escolhas, não são controladas, não são controláveis. Isso não quer dizer, é claro, que devemos amassar o carro do primeiro apressado que nos feche no trânsito. Saber que não posso evitar o mal (e me refiro a todo um pacote de afetos, desejos e atitudes assim rotulados) é o primeiro passo para a saúde. Isso porque, ao levar a fechada no trânsito, se quero lutar contra a raiva, sentirei, sim, raiva. E pior: se somará a culpa por sentir raiva. Ou, ainda, jogarei ambas para debaixo do tapete (sem nem querer saber que tipo de poeira estou varrendo – o que dificulta em muito saber a melhor forma de limpar), e morre...

Carnaval: inconsciente potente, inconsciente opressor

Carnaval de 1989, carro alegórico da Beija-flor de Nilópolis levava o Cristo Redentor vestido em farrapos, em meio à população miserável. A imagem foi proibida pela Igreja e o Cristo, coberto, foi substituído pelos dizeres: “mesmo proibido, olhai por nós”. Então é carnaval, pode tudo... ou não. Certamente, suspende-se a Lei, suspendem-se dominações políticas opressoras. Acontece que, se por um lado a suspensão da Lei extravasa potências recalcadas, por outro, a mesma suspensão da Lei extravasa a pulsão perversa e opressora que queremos ver longe de nós. Esbarramos, na verdade, em problemas mais gerais: a esquerda e a voz do inconsciente. Um dia volto mais detidamente neste tema, mas não parece nada contraintuitivo pensar que fazer esquerda é fazer falar a voz do inconsciente: a voz do reprimido, a voz do (propositalmente) esquecido, a voz do marginal. Neste sentido, a grande festa brasileira, com seu pode tudo , faz democracia, potencializa a diferença e abre espaço de c...

Os mortos do Brasil

No último texto, falamos sobre mortos e complexos, e dissemos, em suma: deixemos os mortos falarem. Sem verdades espíritas, sem verdades psicológicas, deixemos os mortos falarem na pura experiência fenomenológica do que têm a nos dizer. E é evidente que, como em tudo, falarão com eles nossos complexos. Hoje, pergunto: se falassem, que diriam os mortos do Brasil? E pergunto, é claro, porque ao longo do último mês vimos “a morte ali na esquina”, como diria Mortícia Adams, desde acidentes de helicóptero até enormes tragédias de lama tóxica. Acontece que a minha própria formulação me intriga: “se falassem”? Parece que a morte desandou a falar no último mês (uma parte dela, pelo menos). E parece também que ninguém parou para ouvir: todos se chocaram, se assustaram com o fantasma, saíram correndo, e nenhum sequer deixou que os mortos falassem. Bem, não é surpresa, afinal, a morte não vinha falando muito, vinha sendo dia a dia mais silenciada na calada da noite (“chama o ladrão, chama o ...

Mortos e complexos

Começo este texto com a voz da anima, com a voz dos mortos do Livro Vermelho, com as alter-vozes do mais dentro. E com o compromisso de ficar com a imagem. Em outras palavras, começo com o Jung do Livro Vermelho, não com o Jung do doutorado sobre uma médium espírita. Ou seja, com o Jung que fala com os mortos, não com o Jung que iguala os mortos a complexos. Não que me interesse chamar Jung de espírita ou místico, mas me interessa, antes de tudo, a atitude fenomenológica de validação da experiência por ela mesma.  Não quero dizer que há mortos falando com Jung (apesar de que, a esta altura, ele está entre os mortos), que pudessem ser empiricamente comprovados – se é que isto vale alguma coisa. Meu único pedido aqui é que não descartemos a experiência atribuindo mortos a complexos, como fez o próprio Jung em seu doutorado, a partir de teorias pretensamente científicas, que faltam em sabedoria. Mortos e complexos podem andar de mãos dadas, mas muito antes disso, como tudo, os ...

Nova Era e luta social

Antes de tudo, precisamos notar como o chamado Movimento Nova Era, em sua integralidade, é inseparável do mundo contemporâneo. Àqueles que não o conhecem, a ideia de Nova Era tem suas origens já no movimento hippie , ao melhor estilo John Lennon, imaginando a superação das nações, das guerras, do Céu e do Inferno, imaginando todos os povos compartilhando todo o mundo. É um movimento espiritualista que gira em torno de algumas ideias centrais: a) No século XXI, intensifica-se uma mudança planetária que teve início no século XIX, chamada transição planetária, para uma convivência pacífica e harmônica a nível mundial (daí “Nova Era”). Em geral esta ideia vem associada à queda dos modelos estabelecidos de vida que causam sofrimento e desigualdade, bem como a uma maior preocupação com a experiência espiritual; b) Todas as religiões e filosofias apresentam visões diferentes das mesmas verdades universais, o que leva a um certo globalismo religioso; c) Com a maior atenção à experiên...

Especial de Natal: ama ao teu próximo como a ti mesmo

Em tempos de hegemonia monoteísta, é preciso resgatar o politeísmo do próprio Cristo – politeísmo psíquico, ao menos. Hillman nos ensina os perigos do monoteísmo egoico e centralizador, do monoteísmo de um deus que encarna o perverso totalitário [1]. Se há algo que Jung e os junguianos podem trazer de valioso é a multiplicidade do teatro psíquico, este drama 1100 personagens onde nenhum – jamais! – é igual ao outro. A psique plural de Andrew Samuels se faz radicalmente na multiplicidade, logo, na diferença. Isto é politeísmo: o culto à diferença [2]. O Natal que temos pela frente encerra um ano de uso perverso da religião, um ano marcado pela política que, em nome (questionável) de Deus, centraliza e mata. Para fechar com chave de ouro, um grande médium de cura se revela um abusador. Dúvida cruel: onde, no discurso do amor cristão, cabe a morte, o abuso, a opressão? O problema é mais embaixo. O deus monoteísta não é uma ideia existencial que gira em torno das perguntas fundamenta...

Perversão ou subversão? (Do totalitarismo à resistência)

Há lei que não seja totalitária? Talvez seja conveniente perguntar antes: há lei que não seja perversa? Certamente, nem toda dominação é perversão. Aliás, nem só de perversão se faz o totalitarismo. Para que o haja, não basta um sujeito perverso, que se crê encarnado da Lei¹, é preciso que o acompanhem milhares ou milhões de sujeitos literalizados/literalizadores que ainda acreditem na imaginarização da Lei – a própria neurose... será? O panóptico foucaultiano², por exemplo, não depende do sujeito perverso, e sua eficácia está justamente em que o neurótico que se crê observado basta à sua própria vigilância. É um equipamento que se opera na sua própria neurótica (obsessiva?), mantendo toda sua estrutura = ordem em torno que uma centralização ausente da Lei: falo, mana, fonema zero, casa vazia. Monto este significante, estrutura = ordem, justamente porque a minha aposta aqui é que estrutura não implica necessariamente em ordem, no sentido da dominação. O panóptico pode não implic...