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Escritura das máquinas desejantes: origem e negatividade

            Ler Deleuze e Guattari flui... e corta. Digo, a escritura esquizoanalítica é, ela mesma, máquina desejante, com seus fluxos e cortes. É a brutalidade crua do Real – nada mais justo! Eles terminam o primeiro parágrafo dO Anti-édipo com uma bomba, “algo se produz: efeitos de máquina e não metáforas”. A brutalidade crua do Real. O que leio é que a metáfora é a posteriori demais (e, de fato, não há como negar). Parece que escapa, no entanto, aquilo que sempre nos escapa: precisamente, o Real. Antes que se deduza de mim um suspiro desesperado de um Lacan moribundo desacatado pela máquina desejante, digo que não precisamos chama-lo Real. Heidegger, que aplainou o terreno para isso que chamamos pós-estruturalismo, já nos avisava: a linguagem não dá conta do incomensurável do mundo, logo, a essência da linguagem não é analítica, mas poética.             Não quer dizer...

O vírus da revolução?

Nota de 12 de outubro de 2020 : é, parece não foi desta vez... =/                                        "Minha visão não é matar as pessoas per se, mas criar cosciência sobre o acesso à saúde pública!"                                           Começo pela internet, porque é dela que parto. Retorno a dois chavões adiante. Antes de tudo, a radicalidade: o vírus da revolução. Quebra economias, rompe fronteiras e obriga a coletividade a se articular. É bem verdade que há outros níveis da coisa - quarentena é privilégio! - mas o que tenho de mais próprio a dizer, vem de outro lugar - otimista? Talvez. Mas não, não acredito que o vírus fará a revolução, até porque conhecemos bem a capacidade do capitalismo liberal de se aproveitar. Há mesmo o temor de reações autoritárias, pa...

Ser de umbanda, ser de esquerda

Os caboclos, os pretos-velhos, os marinheiros, os baianos... Lembro do primeiro contato que tive com um guia da linha dos malandros, que, com seu sorriso sambista e seu sotaque baiano, me dizia: — Estou aqui para ensinar da luz que tem no samba. Sempre que precisar ensinar pra alguém que na favela também tem Deus, tu pode me chamar! Lembro também da pombagira que ensinava para o querido Alexandre Marques Cabral que pombagira é puta que morre na fogueira, mas rindo da cara do inquisidor – contando junto, aliás, que era preciso saber para quem a pombagira ri e de quem ela ri; que homens e que mulheres? E, um último fragmento para esta abertura, dizia o Exu Caveira com quem trabalho: — Não é à toa que esquerda é esquerda na umbanda e na política. Índios, escravos, caiçaras, baianos. A morte no exu de cemitério, o sexo na pombagira da fogueira. A malandragem falando de samba e de favela. Não, não é qualquer grupo que se torna uma linha de umbanda. E isso tem de ser entendido...

Do céu e da terra no ocidente e no oriente (aqui e lá)

Cena 1 - Platão: Mundo das ideias. Verdadeiras verdades. Bem conhecemos o mito da caverna. Experienciamos um mundo sensível, feito e sombras ilusórias, projeções mal acabadas do mundo lá fora. Quem sai ofusca-se, mas logo pode ver as formas originais, imutáveis, as essências perfeitas. Ao retornar, será desacreditado. Mas eis o filósofo. A verdade e o bem estão lá. Cena 2 - Cristianismo: o Criador anterior à criação. Deus está lá fora, num paraíso perdido. Talvez nosso mundo não seja pura ilusão como pretendia Platão, mas a verdade fundamental está em Deus, puro bem. Muitas vezes, a carne é o fundamento do pecado. As tentações da terra afastam o homem de Deus. O mal é da terra. Do mesmo modo como estava antes, Ele estará depois. O juízo final. A verdade e o bem estão lá. Cena 3 - Descartes: a dúvida hipebólica. Certamente, um critério potente. Mas não posso duvidar de que duvido. E a dúvida é indubitável, quem duvida é indubitável: cogito, ergo sum . Coisa que pensa, res cogit...

Por que o oriente? A simplicidade do Tao contra os dualismos da tradição ocidental

Tenho estudado o taoísmo. Menos pela filosofia da academia que pelo meu daimon esotérico. Mas o que me encanta nas tradições orientais em geral, e no taoísmo particularmente, é o inesperado parentesco com os pensamentos que me têm orientado no mundo dos saberes europeus. Não há influência direta, em geral. Quando muito, em Jung – mas convenhamos que, para fazer o que tenho tentado fazer do seu pensamento (e que me parece bastante próximo de tais tradições), é necessária uma leitura ridiculamente específica e crítica dos textos junguianos. Heidegger, Deleuze, Lacan... estes dificilmente teriam citado Lao-Tsé. Ainda assim, a filosofia taoísta, tanto quanto os pensamentos que me reinventam, poderia ser descrita inteiramente como uma filosofia da negatividade. No alto da escada das coisas sagradas, o Tao. Por um lado, absoluto; pelo mesmo lado, vazio. Já passei por isso aqui antes, e algum dia pretendo mergulhar de cabeça, mas por ora só repito que, de alguma maneira, o todo e o nad...

O campo psi: operador na cena da falácia das ciências humanas

Há alguns meses fui inquirido, enquanto estudante de psicologia, sobre nossa epistemologia. É claro que minha resposta foi um grande improviso bagunçado sobre abordagens e, no fim, falei, falei e não disse nada. O fato é que não temos epistemologia e, por isso mesmo, produzimos mais e mais abordagens sem ter fim. Mas não é à toa, nosso problema é o problema das humanidades. É conhecido o enrosco epistemológico de se construir  ciências  humanas: o campo põe o sujeito no lugar de objeto. A bem da verdade, as humanidades põe em jogo o engodo cartesiano do dualismo sujeito-objeto (para não falar de outros). Nas ciências da natureza, vá lá, muito produtivo; para nós, a coisa bambeia. De alguma maneira, a psicologia não conseguiu se resolver com isso – me parece que talvez por sua própria constituição. Nossos colegas vêm encontrando modos de se desvencilhar do problema separando de algum modo seu objeto do humano propriamente dito: a antropologia estuda a cultura; a história, um...

Desgrupalizar: possibilidades de grupo a serviço da singularização

            Em Utopia do desejo [1], sinalizei uma dívida da Psicologia com a sociedade: modos de singularização – aquela que buscamos em análise – que atuem no coletivo, que possam produzir uma ética do desejo e da contradição para além dos limites sociais e quantitativos da clínica tradicional. Dizia que as atuações coletivas da psicologia têm substituído a psicoterapia, com seus ideais de cura e alívio de sofrimento, mas não a análise, esfacelamento do sujeito dado como a priori , escancaramento do vazio, da pluralidade e do impossível. Hoje, talvez, eu traduzisse isso pelo sujeito residual deleuziano, pelo desejo que se movimenta sem eu ideal, na multiplicidade fluídica do corpo-sem-órgãos.             Algum tempo atrás, fui questionado sobre a prática de grupos – que vinha incluindo na lógica da cura, onde o encontro de dores semelhantes aplacaria a dor de cada um. O...

Pensamentos despretensiosos sobre o mal, o bem e uma suposta "positividade" negativada

Mal e bem, guerra e paz, raiva e paciência, medo e coragem, ego e transcendência... são tantas as oposições que nos constituem, no âmago do humano. Erro e acerto. Erro? Medo é erro? Raiva é erro? Ego é erro? Um afeto que me invade corporalmente, ou uma estrutura que se funda nos limites difusos (no não-limite, na verdade) entre natureza e cultura – coisas assim não partem de escolhas, não são controladas, não são controláveis. Isso não quer dizer, é claro, que devemos amassar o carro do primeiro apressado que nos feche no trânsito. Saber que não posso evitar o mal (e me refiro a todo um pacote de afetos, desejos e atitudes assim rotulados) é o primeiro passo para a saúde. Isso porque, ao levar a fechada no trânsito, se quero lutar contra a raiva, sentirei, sim, raiva. E pior: se somará a culpa por sentir raiva. Ou, ainda, jogarei ambas para debaixo do tapete (sem nem querer saber que tipo de poeira estou varrendo – o que dificulta em muito saber a melhor forma de limpar), e morre...

Carnaval: inconsciente potente, inconsciente opressor

Carnaval de 1989, carro alegórico da Beija-flor de Nilópolis levava o Cristo Redentor vestido em farrapos, em meio à população miserável. A imagem foi proibida pela Igreja e o Cristo, coberto, foi substituído pelos dizeres: “mesmo proibido, olhai por nós”. Então é carnaval, pode tudo... ou não. Certamente, suspende-se a Lei, suspendem-se dominações políticas opressoras. Acontece que, se por um lado a suspensão da Lei extravasa potências recalcadas, por outro, a mesma suspensão da Lei extravasa a pulsão perversa e opressora que queremos ver longe de nós. Esbarramos, na verdade, em problemas mais gerais: a esquerda e a voz do inconsciente. Um dia volto mais detidamente neste tema, mas não parece nada contraintuitivo pensar que fazer esquerda é fazer falar a voz do inconsciente: a voz do reprimido, a voz do (propositalmente) esquecido, a voz do marginal. Neste sentido, a grande festa brasileira, com seu pode tudo , faz democracia, potencializa a diferença e abre espaço de c...

Os mortos do Brasil

No último texto, falamos sobre mortos e complexos, e dissemos, em suma: deixemos os mortos falarem. Sem verdades espíritas, sem verdades psicológicas, deixemos os mortos falarem na pura experiência fenomenológica do que têm a nos dizer. E é evidente que, como em tudo, falarão com eles nossos complexos. Hoje, pergunto: se falassem, que diriam os mortos do Brasil? E pergunto, é claro, porque ao longo do último mês vimos “a morte ali na esquina”, como diria Mortícia Adams, desde acidentes de helicóptero até enormes tragédias de lama tóxica. Acontece que a minha própria formulação me intriga: “se falassem”? Parece que a morte desandou a falar no último mês (uma parte dela, pelo menos). E parece também que ninguém parou para ouvir: todos se chocaram, se assustaram com o fantasma, saíram correndo, e nenhum sequer deixou que os mortos falassem. Bem, não é surpresa, afinal, a morte não vinha falando muito, vinha sendo dia a dia mais silenciada na calada da noite (“chama o ladrão, chama o ...