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Dois modelos para pensar decolonialidade e diferença

  Quem cala sobre o teu corpo Consente na tua morte Talhada a ferro e fogo Nas profundezas do corte Que a bala riscou no peito Quem cala morre contigo Menino - Milton Nascimento E aquilo que neste momento se revelará aos povos Surpreenderá a todos não por ser exótico Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto Quando terá sido o óbvio Um Índio - Caetano Veloso Começo a escrever ecoando o que há algumas semanas tem me saltado aos olhos cada vez mais: a incapacidade da esquerda - ou das lutas de resistência, quais sejam - de se aliar frente a um mal comum. Mas não me detenho nisso, apenas aponto o que me leva a escrever. Aqui vou mais na esteira de tentar definir o que é isto que penso e faço, talvez mais bem nomeável por um nomadismo e uma decolonialidade do que pelo título genérico e grandioso ~esquerda~ ... ao menos no que se pretenda restringir o título àquela tradicional tomada de posição na luta de classes que se pretende universal. Acontece que, quando saímos do âmbito e...

Carta à Terra das Cores

São Paulo, 10 de julho de 2020 À Terra das Cores,             “Ó, musa do meu fado, ó, minha mãe gentil” , já te escrevi o quanto me estranha ter tão forte meu lirismo português no mesmo corpo que se vê tão brasileiro. Parece-me agora mais doce pensar que não me estranha, mas que prova e ensina o valor da composição múltipla que te faz. Prova e ensina que emancipar a colônia não implica rancor da metrópole. Pelo contrário, este rancor nos ata mais ainda ao que há de colônia em nós: nos ata à nossa mágoa, à tentativa constante e infactível de reprimir nosso lirismo português, nossa saudade de um fado ao luar e até, por que não?, nossa ambição extravagante de navegar o além-mar.             Não me esqueço, Terra das Cores, do teu colorido, “os Tons, os Mil-tons, seus sons e seus dons geniais” , que tantos me compõem, e outros tantos acompanho. Não me esqueço da cor das...

Escritura das máquinas desejantes: origem e negatividade

            Ler Deleuze e Guattari flui... e corta. Digo, a escritura esquizoanalítica é, ela mesma, máquina desejante, com seus fluxos e cortes. É a brutalidade crua do Real – nada mais justo! Eles terminam o primeiro parágrafo dO Anti-édipo com uma bomba, “algo se produz: efeitos de máquina e não metáforas”. A brutalidade crua do Real. O que leio é que a metáfora é a posteriori demais (e, de fato, não há como negar). Parece que escapa, no entanto, aquilo que sempre nos escapa: precisamente, o Real. Antes que se deduza de mim um suspiro desesperado de um Lacan moribundo desacatado pela máquina desejante, digo que não precisamos chama-lo Real. Heidegger, que aplainou o terreno para isso que chamamos pós-estruturalismo, já nos avisava: a linguagem não dá conta do incomensurável do mundo, logo, a essência da linguagem não é analítica, mas poética.             Não quer dizer...

O vírus da revolução?

Nota de 12 de outubro de 2020 : é, parece não foi desta vez... =/                                        "Minha visão não é matar as pessoas per se, mas criar cosciência sobre o acesso à saúde pública!"                                           Começo pela internet, porque é dela que parto. Retorno a dois chavões adiante. Antes de tudo, a radicalidade: o vírus da revolução. Quebra economias, rompe fronteiras e obriga a coletividade a se articular. É bem verdade que há outros níveis da coisa - quarentena é privilégio! - mas o que tenho de mais próprio a dizer, vem de outro lugar - otimista? Talvez. Mas não, não acredito que o vírus fará a revolução, até porque conhecemos bem a capacidade do capitalismo liberal de se aproveitar. Há mesmo o temor de reações autoritárias, pa...

Ser de umbanda, ser de esquerda

Os caboclos, os pretos-velhos, os marinheiros, os baianos... Lembro do primeiro contato que tive com um guia da linha dos malandros, que, com seu sorriso sambista e seu sotaque baiano, me dizia: — Estou aqui para ensinar da luz que tem no samba. Sempre que precisar ensinar pra alguém que na favela também tem Deus, tu pode me chamar! Lembro também da pombagira que ensinava para o querido Alexandre Marques Cabral que pombagira é puta que morre na fogueira, mas rindo da cara do inquisidor – contando junto, aliás, que era preciso saber para quem a pombagira ri e de quem ela ri; que homens e que mulheres? E, um último fragmento para esta abertura, dizia o Exu Caveira com quem trabalho: — Não é à toa que esquerda é esquerda na umbanda e na política. Índios, escravos, caiçaras, baianos. A morte no exu de cemitério, o sexo na pombagira da fogueira. A malandragem falando de samba e de favela. Não, não é qualquer grupo que se torna uma linha de umbanda. E isso tem de ser entendido...

Do céu e da terra no ocidente e no oriente (aqui e lá)

Cena 1 - Platão: Mundo das ideias. Verdadeiras verdades. Bem conhecemos o mito da caverna. Experienciamos um mundo sensível, feito e sombras ilusórias, projeções mal acabadas do mundo lá fora. Quem sai ofusca-se, mas logo pode ver as formas originais, imutáveis, as essências perfeitas. Ao retornar, será desacreditado. Mas eis o filósofo. A verdade e o bem estão lá. Cena 2 - Cristianismo: o Criador anterior à criação. Deus está lá fora, num paraíso perdido. Talvez nosso mundo não seja pura ilusão como pretendia Platão, mas a verdade fundamental está em Deus, puro bem. Muitas vezes, a carne é o fundamento do pecado. As tentações da terra afastam o homem de Deus. O mal é da terra. Do mesmo modo como estava antes, Ele estará depois. O juízo final. A verdade e o bem estão lá. Cena 3 - Descartes: a dúvida hipebólica. Certamente, um critério potente. Mas não posso duvidar de que duvido. E a dúvida é indubitável, quem duvida é indubitável: cogito, ergo sum . Coisa que pensa, res cogit...