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Este texto não é um vira-voto

Este texto não é um vira-voto. Este texto é para você que tem horror à extrema direita vazia e sanguinolenta que temos visto, mas que ainda tem um pé atrás com a “esquerda”... seja lá o que esquerda signifique hoje, se é que existe uma. Este texto é para você que não gosta de extremos, “nem extrema direita, nem extrema esquerda”. Este texto é para você que até vê mais sentido nos projetos “sociais”, mas tem medo de votar num candidato de esquerda e levar a economia à bancarrota.  E falar disso só possível porque, para um alívio momentâneo, temos uma eleição em São Paulo que nos permite voltar a debater que nem gente grande sobre projetos de governo. Afinal, vínhamos numa onda de muito confronto e poucas ideias, de um lado vociferando sangue e outro se debatendo desesperadamente para sobreviver. Talvez seja muito otimismo meu, mas parece que as eleições atuais nos permitem voltar a um debate de planos e propostas, que não opõe vida e morte, mas um projeto neoliberal e um projeto… de...

O amor entre afeto e alteridade: de uma moral cristã a uma ética da pluralidade¹

  Pedro H. Mendonça; Luís Eduardo Cobra Lacorte Começo esclarecendo que este trabalho nasce de uma proposta atribuída a Linn da Quebrada, num debate sobre o filme Bixa Travesty . No entanto, é preciso que seja dito que nem eu, nem Luís estivemos presentes na ocasião. Então, mais do que debater diretamente com Linn, o que tentamos é uma construção teórica que dê forma aos ecos afetivos da proposta, que diz: eu não uso o amor como arma de luta, porque essa é a arma deles, uso a raiva. Na ocasião em que surge o relato desta fala de Linn, reconhecíamos a legitimidade do argumento, ao mesmo tempo que sentíamos certo estranhamento da proposta de excluir o amor de um projeto político, nos questionando ainda se este estranhamento era resquício de um discurso hegemônico em nós, ou se se tratava, antes, de um projeto de sociedade e de resistência ainda mal elaborado, anunciado como uma vaga sensação. De início, esta denúncia aponta a moralização do amor como estratégia de manutenção tanto de...

Dois modelos para pensar decolonialidade e diferença

  Quem cala sobre o teu corpo Consente na tua morte Talhada a ferro e fogo Nas profundezas do corte Que a bala riscou no peito Quem cala morre contigo Menino - Milton Nascimento E aquilo que neste momento se revelará aos povos Surpreenderá a todos não por ser exótico Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto Quando terá sido o óbvio Um Índio - Caetano Veloso Começo a escrever ecoando o que há algumas semanas tem me saltado aos olhos cada vez mais: a incapacidade da esquerda - ou das lutas de resistência, quais sejam - de se aliar frente a um mal comum. Mas não me detenho nisso, apenas aponto o que me leva a escrever. Aqui vou mais na esteira de tentar definir o que é isto que penso e faço, talvez mais bem nomeável por um nomadismo e uma decolonialidade do que pelo título genérico e grandioso ~esquerda~ ... ao menos no que se pretenda restringir o título àquela tradicional tomada de posição na luta de classes que se pretende universal. Acontece que, quando saímos do âmbito e...

Carta à Terra das Cores

São Paulo, 10 de julho de 2020 À Terra das Cores,             “Ó, musa do meu fado, ó, minha mãe gentil” , já te escrevi o quanto me estranha ter tão forte meu lirismo português no mesmo corpo que se vê tão brasileiro. Parece-me agora mais doce pensar que não me estranha, mas que prova e ensina o valor da composição múltipla que te faz. Prova e ensina que emancipar a colônia não implica rancor da metrópole. Pelo contrário, este rancor nos ata mais ainda ao que há de colônia em nós: nos ata à nossa mágoa, à tentativa constante e infactível de reprimir nosso lirismo português, nossa saudade de um fado ao luar e até, por que não?, nossa ambição extravagante de navegar o além-mar.             Não me esqueço, Terra das Cores, do teu colorido, “os Tons, os Mil-tons, seus sons e seus dons geniais” , que tantos me compõem, e outros tantos acompanho. Não me esqueço da cor das...