Pular para o conteúdo principal

Postagens

Psicanálise pública e clínica privada: quem tem medo do divã na rua?

Pra começo de conversa, melhor seria dizer: quem tem medo da rua no divã? Afinal, o que mexe de fato nas coisas não é falar de papai e mamãe na praça pública, mas descobrir que papai e mamãe também fazem parte da praça pública. Mas chego lá. Quero começar de outro lugar. Pra gente que trabalha com psicanálise pública, a polêmica é sempre a mesma: $$. É até chato. Eu, que vim de umas experiências como AT, queria sempre falar dessas coisas que acontecem no espaço público, tipo uma criança passar rolando entre você e o analisando, ou alguém vir pedir uma esmola, ou um jovem muito bem vestido querer falar de Jesus. Mas não, quando se fala na dita “psicanálise no espaço público”, a primeira coisa que se fala é sempre: dinheiro. Quando não é a primeira, é a última, pois a discussão sempre leva a isso. E é também o dinheiro que encerra tudo: nada a discutir depois dele, e o pior, heróis e vilões do anticapitalismo muito bem delimitados. É curioso, porque todo mundo tem heróis e vilões muito ...

Dois modelos para pensar decolonialidade e diferença (na academia)

Leitura Flutuante - Revista do Centro de Estudos em Semiótica e Psicanálise v. 12, n. 2 (2020) https://revistas.pucsp.br/index.php/leituraflutuante/issue/view/2542    Compartilho, com este link, o último volume da revista Leitura Flutuante - revista do centro de estudos em semiótica e psicanálise - onde foi publicada uma segunda versão do texto Dois modelos para pensar decolonialidade e diferença  ( https://entredois-phmendonca.blogspot.com/2020/09/dois-modelos-para-pensar.html ). É uma versão um bocado adaptada por imposições do mundo acadêmico, mas também expandida em alguns pontos. Agradeço imensamente, antes de tudo, ao professor Luis Esteban Dominguez pelos grandíssimos debates que tivemos ao longo do semestre passado, e que me levaram a muito pensar e, por fim, escrever a primeira versão. Lastimo que não esteja mais no nosso curso, mas espero muito que ainda nos vejamos. Seguindo o tempo, agradeço imensamente à professora Lucia Santaella por todos os incentivos desd...

Este texto não é um vira-voto

Este texto não é um vira-voto. Este texto é para você que tem horror à extrema direita vazia e sanguinolenta que temos visto, mas que ainda tem um pé atrás com a “esquerda”... seja lá o que esquerda signifique hoje, se é que existe uma. Este texto é para você que não gosta de extremos, “nem extrema direita, nem extrema esquerda”. Este texto é para você que até vê mais sentido nos projetos “sociais”, mas tem medo de votar num candidato de esquerda e levar a economia à bancarrota.  E falar disso só possível porque, para um alívio momentâneo, temos uma eleição em São Paulo que nos permite voltar a debater que nem gente grande sobre projetos de governo. Afinal, vínhamos numa onda de muito confronto e poucas ideias, de um lado vociferando sangue e outro se debatendo desesperadamente para sobreviver. Talvez seja muito otimismo meu, mas parece que as eleições atuais nos permitem voltar a um debate de planos e propostas, que não opõe vida e morte, mas um projeto neoliberal e um projeto… de...

O amor entre afeto e alteridade: de uma moral cristã a uma ética da pluralidade¹

  Pedro H. Mendonça; Luís Eduardo Cobra Lacorte Começo esclarecendo que este trabalho nasce de uma proposta atribuída a Linn da Quebrada, num debate sobre o filme Bixa Travesty . No entanto, é preciso que seja dito que nem eu, nem Luís estivemos presentes na ocasião. Então, mais do que debater diretamente com Linn, o que tentamos é uma construção teórica que dê forma aos ecos afetivos da proposta, que diz: eu não uso o amor como arma de luta, porque essa é a arma deles, uso a raiva. Na ocasião em que surge o relato desta fala de Linn, reconhecíamos a legitimidade do argumento, ao mesmo tempo que sentíamos certo estranhamento da proposta de excluir o amor de um projeto político, nos questionando ainda se este estranhamento era resquício de um discurso hegemônico em nós, ou se se tratava, antes, de um projeto de sociedade e de resistência ainda mal elaborado, anunciado como uma vaga sensação. De início, esta denúncia aponta a moralização do amor como estratégia de manutenção tanto de...

Dois modelos para pensar decolonialidade e diferença

  Quem cala sobre o teu corpo Consente na tua morte Talhada a ferro e fogo Nas profundezas do corte Que a bala riscou no peito Quem cala morre contigo Menino - Milton Nascimento E aquilo que neste momento se revelará aos povos Surpreenderá a todos não por ser exótico Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto Quando terá sido o óbvio Um Índio - Caetano Veloso Começo a escrever ecoando o que há algumas semanas tem me saltado aos olhos cada vez mais: a incapacidade da esquerda - ou das lutas de resistência, quais sejam - de se aliar frente a um mal comum. Mas não me detenho nisso, apenas aponto o que me leva a escrever. Aqui vou mais na esteira de tentar definir o que é isto que penso e faço, talvez mais bem nomeável por um nomadismo e uma decolonialidade do que pelo título genérico e grandioso ~esquerda~ ... ao menos no que se pretenda restringir o título àquela tradicional tomada de posição na luta de classes que se pretende universal. Acontece que, quando saímos do âmbito e...